A gente se acostuma a chegar atrasado ao trabalho, à comida sem sal da assistente que trabalha há mais de dez anos na nossa casa, ao calor infernal dos verões recifenses. Ao eterno falar alto da mãe.
A gente nem liga mais quando os garçons parecem estar fazendo favor, quando o celular demora 15 minutos para conseguir fazer uma ligação, quando o servidor público vai embora para casa após o almoço da sexta.
A gente se acostuma com tanta coisa. Eu também consigo me adaptar, acredito, facilmente. Mas e quando o assunto é saudade, tem como se acostumar?
A gente não fez planos. Nem chegamos a pensar no sofá: branco, marrom, vermelho? A gente não viu, verdadeiramente, um nascer do sol. A viagem dos sonhos ficou engavetada, o clube do livro também. A gente não teve música, filho, briga, conta conjunta. A gente não teve a gente.
E no meu novo decreto, é proibido fazer mal, deixar mal quem eu amo. Lágrimas, se existir, só de alegria.
Revistas velhas, bilhetes antigos, recortes de jornais. Três bolsas abarrotadas de lembranças foram ao lixo. Nem eram lembranças das fortes, mas fiquei acabado no fim do dia – sempre difícil praticar o desapego.
O quarto continua cheio de pertences, sem espaço. Mas, agora, organizado. Algumas fotos do mural foram modificadas; algumas lembranças, impossíveis de serem jogadas, acabaram guardadas bem no fundo do baú. Mudanças pequenas, mas tudo bem no caminho que venho seguindo.
E ontem, depois de um turbilhão de felicidade, chego ao meu quarto e só consegui pensar em saudade. Melhor com, principalmente quando ela tem sabor de vida, e não de tristeza. Já já, quem sabe, ela não se transforma em algo como um bilhete antigo, amarelado, que a gente vê, recorda, guarda e coloca para dormir por mais um bom tempo.
"Me esqueci! De tentar te esquecer Resolvi! Te querer, por querer"
Noite, casa ainda na balbúrdia. Me pego deitado, som ligado, encarte do CD em mãos. Tanto tempo sem isso. É, de repente, descubro a arte de amar de novo. As letras tomam outras proporçoes. Saber que a música é do próprio artista ou de Bob Marley... Isso acaba fazendo diferença no ouvir. Leio as dedicatórias, onde foi gravado, vejo as fotos e desenhos. Entro em outro mundo, monto mais um mundo meu.
Daí, lembro da tatuagem: eu, nós, todos. Como se o resgate desse amar, de certa forma incentivado ou roubado de outro, só ratificasse o escrito no riscado corporal. Ah, sendo assim, acrescento outras tantas manias nessa lista: DVDs, sorrisos... Eus roubados de outrens. Mas eus.
O que fazer quando não se cabe em si? De saudade, de vontade, de preguiça, de trabalho, de vida? Ando, ainda, tão bagunçado, tão desorganizado, que misturo tudo e só quando paro para ouvir uma música, para olhar a rua enquanto caminho, parece que algo se agrega e se organiza realmente. Encontro com mais de dois amigos está terminantemente proibido no momento. Reunião familiar só em caso de extrema necessidade. Brincando de ilha, de casulo, e abrindo poucas exceções para compartilhamento.
Por esses dias, comecei o processo de rabiscar mentalmente as promessas para 2012. Ao mesmo tempo, vou limpando as arestas, jogando fora os antigos bilhetes (de amor?), deletando contatos das redes sociais. Tirando gente do pensamento, tirando pseudo-amigos do convívio. Nisso, percebe-se como poucos fazem falta de verdade, como muitos são dispensáveis, como outros não precisam estar o tempo todo junto para ser, como faz bem perceber tudo isso.
Nos passos curtos para acabar 2011, mas já sabendo que será preciso correr em 2012 para compensar tantas decepções, tantas perdas, tantas crises e alguns choros compulsivos. 2012, ano do lilás e ano de correr atrás de outros objetivos. Meus objetivos. Se a gente não para, é bem capaz de chegar lá.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
" : casa comigo, em um domingo na praia, e viver uma história pra sonhar".
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Querendo deixar tudo branco, tinindo. Durante o processo, me manchando de vermelho.
De repente, veio aquela vontade de dizer: “estava com saudade de você”. Já era sentido, comentado com alguns próximos. No encontro inesperado, de boca cheia, limpa, falei. Era apenas saudade, sentimento bonito. Não vi meu sorriso. Não lembro, mas creio que foi um daqueles bonitos que guardo para momentos assim, digamos que singulares.
Em um dia, uma frase dessas. Antes, várias frases escritas, também saídas com a espontaneidade que mereciam. Atitudes bem minhas, mas, como conversado nesta noite, sem teor de melancolia, de exacerbação. Só com a constatação que alguns atos podem ser por si só, só pelo prazer de ser verdadeiro consigo, sem esperar mesmo nada – talvez um sorriso sem resposta, como o recebido pela frase da saudade.
Meio cabreiro para não atrair energias negativas, histórias e pessoas que só possam trazer, neste momento, complicações. E totalmente aberto a ser verdadeiro, a falar sem medo e vergonha; a me emocionar com quase nada, com o simples, com as músicas que transbordam e explicam um momento, uma história. Ainda bem.